sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Depois da discussão ao almoço, vem a paz, as tréguas. Como se nada tivesse acontecido fala para mim num tom calmo e sereno. Eu, automaticamente, penso: "Já passou".
A partir daí o dia corre sereno e vagaroso.
Ao jantar a mesma calma, parece preocupação na sua voz, pergunta se me dói a cabeça, fala para mim num tom melodioso e o seu olhar por momentos transmite amor.
Depois de jantar... Chega a casa mais uma vez a discussão começa, mais em que insiste em reclamar sozinha, na qual nada posso argumentar, continua e continua. Os gritos, o som grotesco que sai da garganta, o amor que antes pareceu estar no seu olhar desaparece e dá lugar ao ódio. A violência dos actos, do olhar, dos gritos metem medo a quem se aproxime, como tal aterrada vou para o quarto. Mais uma vez o coração aperta e pergunta porque nunca estou á espera, porque penso sempre que talvez já tenha passado, que talvez hoje não acontece, talvez os gritos não saiam para fora com toda a sua violência... Mas engano meu, já cometido infinitas vezes nos meus 18 anos de existência. Volta sempre, se não por alguma coisa inventa-se algo para que possam sair para fora. A rotina não pode ser quebrada.
Mais uma vez, penso nele, peço que me ligue. Ao que parece, assim que viu o pedido liga e ouço a sua voz transparece preocupação ao ouvir a minha voz rouca e sumida. Mais uma vez a pergunta: "Que se passa?" Á qual já respondi várias vezes um dolorido "não sei". Mas por vezes não sei mesmo, estou aqui sentada no meu canto, quando ouço a sua voz mais elevada e num acto automático penso: "que não seja comigo..." ou então "o que fiz (ou não) desta vez...?" Raramente entendo, uma vezes é porque falo, outras porque não falo, outras porque fiz e outras porque não fiz... Muitas vezes não entendo muito simplesmente peço para que passe e pare de gritar comigo... 
Tenho medo... e talvez é isso que me faz ficar assim: Medo!
Durante o telefonema, entre soluços, tento falar, Deitar todo o sofrimento e dor que aquilo me causa, "porque tenho de ser sempre eu, porque não ele?!"
Eu - "Sabes o queria mesmo? É estúpido, mas pronto."
A. - "O quê?!"
Eu - "Nada esquece. É estúpido!" ( Derrepente as lágrimas ganham velocidade e caem sobre a almofada já molhada)
A. - "Diz lá... O que é?"
(Eu disse o que era mas as lágrimas continuaram a insistir em cair, cada vez com mais velocidade, e a voz sumiu-se num soluço)
Eu - "Gostava que ele viesse aqui falar comigo. Estar do meu lado. Ele sabe que por vezes ela não tem razão..."
A. - "..."
Eu - "Se em 18 anos ninguém quis saber, não é agora que alguém vai querer, ou se vai preocupar..."

A partir daí não me recordo de mais, as lágrimas caiam, a dor irrompia do peito. Queria gritar, mas sabia que não podia, que poderia ser pior para mim se o fizesse, um manifesto sonoro da minha dor podia fazer com que a sua fúria aumentasse e a discussão durasse a noite inteira, como já algumas noites...
Eu chorei baba e ranho, gritei esperneei em silêncio, mas não passou.
Então aparece calma  falando como nada se tivesse passado, esquecendo-se mais uma vez que tenho sentimentos e talvez sinta algo com tudo o que aconteceu. Mas isso não importa, nunca importou, então abre a porta pergunta-me algo respondi e foi. Nada disse. Talvez seja melhor assim, ás vezes que julga que está na posse da razão e vê uma reacção da minha parte é pior...
Pode não me atingir fisicamente, mas verbalmente, por vezes, dói muito mais...
Parece que já passou, mais uma vezes. Mas olhando-me ao espelho e vendo uma lágrima escapar, recordo de todas as vezes em que me senti assim, em que ninguém por perto se preocupou sequer em perguntar "Como estás?" ou " É assim como ela diz?" (Muitas vezes não tem razão, faço tudo e mais alguma coisa para tentar ser o que ela quer que eu seja, mas parece nunca serei minimamente boa, para merecer um sorriso, ou um abraço)

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